Artigo

Breve comentário sobre o funeral feminino de Birka

14 de Outubro de 2017 às 17:19
Renan Marques Birro, André Muceniecks e Lukas Gabriel Grzybowski
 

No último dia 08 de setembro de 2017 foi publicado um artigo no American Journal of physical Anthropology[1] cujo título – A female Viking warrior confirmed by genomics – rapidamente tomou conta da internet, tendo repercutido amplamente no Twitter e Facebook. O tema logo recebeu atenção também dos grandes veículos de notícias, tais como o Guardian[2] (12/09), Forbes[3] (08/09), Spiegel[4] (10/09), no exterior, e Globo[5] (via Deutsche Welle, 11/09) e Abril-Veja[6] (12/09), no Brasil. Os títulos variaram desde um sóbrio “A female Viking warrior? Tomb study yields clues”[7] (NYTimes), até um sensacionalista “Wonder Woman lived: Viking warrior skeleton identified as female, 128 years after its Discovery”[8] (Washington Post), passando por um sem-fim de títulos invocando a comprovação científica – diga-se, via o arcabouço das ciências naturais, nesse caso, a biologia – da existência de mulheres guerreiras na sociedade escandinava alto-medieval.[9] O grupo de pesquisas LEM – Leituras da Escandinávia Medieval acompanhou de perto o desenvolvimento do caso e vem discutindo os resultados e implicações das afirmações, tanto em seu conteúdo acadêmico, cuja circulação não foi tão ampla, quanto nos seus aspectos de ciência-pop[10], difundidos nos veículos de notícias e espalhados a grande velocidade nas mídias sociais. O que segue é um pequeno comentário sobre elementos apresentados pela descoberta.

Primeiramente é preciso apresentar brevemente o objeto em discussão. O artigo publicado no AJPA traz os resultados de uma análise genômica levada a cabo nos materiais retirados do sepultamento Bj581, escavado no sítio arqueológico de Birka. Os trabalhos no sítio e a escavação do referido túmulo foram realizados no ano de 1877 e publicados em 1889 por Hjalmar Stolpe[11], etnógrafo, entomólogo e arqueólogo sueco, falecido em 1905, um dos fundadores e o primeiro diretor do museu etnográfico de Estocolmo. Os trabalhos de Stolpe no sepultamento Bj581 apontavam já a singularidade do mesmo por duas razões: o excelente estado de conservação dos artefatos encontrados, assim como sua riqueza, por um lado; e a incerteza quanto ao esqueleto humano encontrado no enterramento. O contexto arqueológico apontava para um túmulo de importante líder guerreiro, ao passo que as características da ossada, apontavam para o fato de ser um corpo feminino encontrado ali. A bacia e a ossatura facial eram tipicamente femininas. Em virtude, sem dúvida, do momento em que se deu a descoberta, optou-se por identificar o sepultamento como sendo de um guerreiro, e os traços femininos do esqueleto como uma inconsistência. A presença de elementos taxados em época como masculinos, aliada à utilização do mesmo sítio para outros enterramentos, fomentou a produção de uma hipótese tradicional, a saber, de que se tratava de um funeral masculino.

A questão da identidade do esqueleto enterrado em Bj581 viria a ser discutida ainda durante o século XX, quando uma investigação osteológica, nos anos 1970, reforçou a tese de que se tratava de um esqueleto feminino, sem gerar, todavia, maiores discussões, posto que os autores falharam em estabelecer uma relação contextual do esqueleto feminino no sítio em questão. Anna Kjellström, uma das autoras do atual trabalho, supostamente teria retomado o trabalho osteológico nos restos de Bj581, encontrando, todavia, ainda resistência em relação aos resultados apresentados. O trabalho atual, baseado em um estudo genômico mitocondrial, espera, segundo seus autores, pôr fim às dúvidas quanto à identidade genotípica do esqueleto encontrado em Birka, no sepultamento Bj581, no ano de 1877.

No meio acadêmico os resultados foram recebidos com um misto de aprovação e ceticismo. Como bem apontou Judith Jesch em um post recente em seu blog[12], a nova pesquisa é de grande relevância, conquanto a espetacularização desta seja um fator negativo, fomentada naturalmente pelo crescente e necessário campo dos estudos de gênero nas últimas décadas, posição com a qual concordamos. Outrossim, a necessidade de reafirmar e reforçar pesquisas para fins de relevância científica e financiamento produzem, em muitas circunstâncias, “descobertas” com pretensões midiáticas. Por estas razões alguns pontos da pesquisa merecem destaque e ponderações críticas.

É preciso refletir sobre o caso de maneira menos passional. Dos indícios, percebe-se que os restos do esqueleto feminino escavado, falecido em torno de seus trinta anos, não possuía indícios de ferimentos congruentes com a atividade bélica. Tal aspecto é tratado de maneira curiosa no artigo do AJPA. Para os autores da pesquisa, isto seria um indicativo da qualidade e habilidade do sujeito cujos restos foram analisados. A ossada, no entanto, também não dispunha do usual desgaste físico, presente tanto nas juntas quanto nas articulações, observado usualmente em guerreiros experimentados. Tal desgaste é um dos indícios utilizados na arqueologia para justamente levantar hipóteses e construir, a partir do contexto, uma narrativa plausível quanto às atividades desempenhadas pelos restos encontrados. Assim como os atletas modernos, os indivíduos que realizassem grande esforço físico no período medieval deveriam apresentar em suas ossaturas, vestígios de tais atividades. Deste modo, embora a pessoa enterrada tenha recebido um funeral típico de um guerreiro, esta possivelmente não desempenhou um papel ativo em batalhas. Nestes termos, seria preciso comparar o caso em questão com outros, como a “Senhora de Peel”, na Ilha de Man.

Outra hipótese é igualmente plausível e muito enriquecedora: seria o funeral de Birka um caso de identidade transgênero, como sinalizado em alguns poemas escáldicos e em certas sagas islandesas? Para Lukas Grzybowski, professor de História Medieval da Universidade de Londrina, “imputar um modelo de constituição dos gêneros baseado nos atributos biológicos exclui necessariamente a possibilidade de estarmos diante de um caso singular de identidade de gênero no medievo”. As categorias de gênero que utilizamos para interpretar as realidades culturais e sociais do século XXI provavelmente não são suficientes para responder a questões existentes no alto-medievo escandinavo. Se a característica central da Idade Média, como tantos pesquisadores colocam, é sua alteridade em relação ao mundo presente, então a restrição do achado a uma das categorias tradicionais da historiografia contemporânea se deve realizar com o máximo do cuidado.

Uma vez que as fontes textuais foram evocadas, é preciso ainda pensar em questões narrativas e ideológicas. Conforme André Muceniecks, professor de História do Cristianismo da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, a presença de mulheres guerreiras na Gesta Danorum de Saxo Grammaticus, por exemplo, deve ser ponderada por ocasião. Na narrativa da Batalha de Bravalla, o dinamarquês menciona a presença de mulheres guerreiras, inclusive em posições de liderança, do lado dinamarquês, mas também um rei cego e contingentes que chamou de “afeminados” (saxões e livônios). Ou seja: a combinação visava detratar os dinamarqueses ao vez de valorizar as mulheres guerreiras. Por esta razão, Muceniecks afirmou que “o relato de Bravalla não se presta [...] para fundamentar argumentos sobre [...] a existência [...] detalhes e especificidades de mulheres guerreiras”. Paradoxalmente, o modelo de Saxo foi e é utilizado para veicular esse tipo de descoberta e conceito no imaginário popular; no caso do funeral de Birka, alguns sites usaram imagens de Lagherta, a personagem guerreira da série Vikings, como forma de chamar atenção para o rótulo de “mulher viking guerreira”; na narrativa de Saxo Lagherta é guerreira forte, mas é usada também para reforçar estereótipos negativos que Saxo imputa às mulheres: apesar de suas virtudes guerreiras, “masculinas” segundo Saxo, Lagherta não seria uma pessoa de confiança.

Por outro lado, é particularmente relevante que a presença de artefatos e sepultamentos sobrepostos a funeral de Birka tenham sido obscurecidos pela espetacularização da descoberta, por razões subreptícias ou não. Naturalmente, tal elemento expõe a não integridade do referido sítio da Era Viking, o que exigirá, consequentemente, mais estudos. Assim, os autores do artigo, talvez motivados pelo calor da hora, lançaram mão de uma hipótese e, principalmente, de um título atrativos, chamativos e legitimados pela noção de autoridade científica – em que ciência é somente aquilo que se enquadra no modelo cartesiano. Se confirmados, produzirão inegável renovação no campo; no entanto, se refutados, podem proporcionar um caso similar ao ocorrido na Controvérsia de Runamo.

Com estas questões o LEM procura destacar alguns elementos, que podem ser resumidos a seguir: primeiramente é preciso grande cautela ao buscar informações científicas em noticiários e periódicos acientíficos. Devido ao fenômeno da aceleração midiática promovida pelo entrelaçamento global no âmbito das redes sociais, as agências cada vez mais apelam para ações agressivas e sensacionalistas, a fim de atrair e prender o público leitor e, assim, gerar renda com clicks digitais. Trend topics são, nesse meio, mais importantes que ética e escrúpulos. Ao concentrarmo-nos sobre os trabalhos acadêmicos é preciso, todavia em segundo lugar, discernimento acerca de como realizar a leitura desses materiais. O equilíbrio e o olhar cético são fundamentais para toda atividade científica de qualidade, como já nos alertava Carl Sagan. Através desses atributos passa a ser possível questionar quais as intenções do trabalho, e quais as informações que ele realmente oferece. No caso específico, o artigo se propõe a apresentar uma informação definitiva em relação à identidade sexual biológica do indivíduo encontrado em Bj581 e sua relação com a população moderna da Europa, recai, todavia, no sensacionalismo e afirmar que se trata da primeira confirmação de restos de uma mulher guerreira, utilizando, para tanto, de recursos retóricos fracos e nenhuma evidência inconteste para tal afirmação. Em outras palavras, os autores passam do fato – o esqueleto corresponde a um indivíduo do sexo feminino (XX) – para a especulação – se trata de uma mulher guerreira de alto escalão, e excelente, pois nunca ferida – baseando-se, para tanto, no argumento – falso – de que, se o indivíduo fosse masculino, questões quanto à atividade e identidade guerreiras dos restos não seriam levantadas. O apontamento de hipóteses interpretativas para os dados levantados – a presença de restos femininos em um sepultamento notadamente atrelado a atividades bélicas – precisa necessariamente recorrer, e este é o terceiro ponto que levantamos, a uma análise mais ampla, contextual, que considere as contribuições que as investigações históricas e linguísticas podem oferecer ao caso. A redução da investigação do passado a um apanhado de dados sobre isótopos, DNAs mitocondriais e cromossomos não responde à questão da relevância dessas informações para os sujeitos hoje.

Finalmente, é preciso destacar que não se trata aqui de uma negação das investigações realizadas e dos resultados obtidos. Pelo contrário. O LEM e seus membros procuram em suas discussões sempre atentar para os limites entre os conhecimentos cientificamente embasados e a especulação acerca do passado medieval escandinavo. Os resultados apresentados no AJPA nos permitem afirmar com certeza que o esqueleto supostamente encontrado em Bj581 e investigado pelo grupo de cientistas é de fato feminino. Resta-nos, todavia, avaliar com o devido cuidado o que este dado pode sugerir em termos de conhecimento histórico, no conjunto dos dados e contextos já trabalhados e ainda por trabalhar em relação ao passado escandinavo da Era Viking. Temos diante de nós um dado, que embora não seja novo traz consigo imenso potencial para o desenvolvimento futuro das discussões a respeito da Escandinávia alto-medieval, mas é preciso cautela para não o destruir, relegando-o ao status de símbolo de um ativismo raso e sensacionalista.

Links e referências:
[1] http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.23308/full

[2] https://www.theguardian.com/…/does-new-dna-evidence-prove-t…
[3] https://www.forbes.com/…/first-female-viking-warrior-prov…/…
[4] http://www.spiegel.de/…/schweden-wikinger-krieger-von-birka…
[5] https://g1.globo.com/…/cientistas-comprovam-que-um-importan…
[6] http://veja.abril.com.br/…/importante-guerreiro-viking-era…/
[7] https://www.nytimes.com/…/sweden-viking-women-warriors-dna.…
[8] https://www.washingtonpost.com/…/wonder-woman-lives-vikin…/…
[9] P.e. http://www.dailymail.co.uk/…/DNA-study-confirms-known-femal…; http://www.iflscience.com/…/genetic-evidence-reveals-burie…/; http://www.independent.co.uk/…/viking-warrior-woman-female-…; https://phys.org/…/2017-09-genetic-proof-women-viking-warri…; https://kurier.at/…/beruehmter-wikinger-krieger…/285.595.739; http://diepresse.com/…/DNAAnalyse_Hochrangiger-WikingerKrie…
[10] O termo, de autoria de A. S. MUCENIECKS parece ser aquele que melhor representa algumas tendências na interface entre conhecimenhto científico e cultura de massas. Sobre este ultimo, BENJAMIN, W. Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit.
[11] Cf. HEDENSTIERNA-JONSON, C. et. al. A female Viking warrior confirmed by genomics. American Journal of physical Anthropology. 2017, p. 2.
[12] http://norseandviking.blogspot.com.br/…/lets-debate-female-…

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