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Sobre o uso de traduções para estudar a Era Viking: vantagens e problemas

21 de Outubro de 2017 às 20:40
O grande público tem sido atraído nos últimos pela temática viking, graças aos filmes, feiras, séries, livros, HQ’s e jogos que empregam elementos culturais, personagens e apropriações do senso comum sobre a Era Viking. Naturalmente, uma quantidade considerável de novos pesquisadores tem surgido no país como reflexo desse interesse. Motivados pelo lazer, eles buscam formas e meios de aprender, com bases científicas, sobre os escandinavos desse período histórico.

Um dos primeiros passos quando se começa a pesquisar é buscar informações na internet e em sua própria língua. Em enciclopédias online em português e espanhol você rapidamente encontra que os nórdicos da Idade Média deixaram um conjunto de textos que, em tese, tratam e retratam os acontecimentos, as vidas e o cotidiano da Era Viking, como as sagas islandesas, as Eddas, os poemas escáldicos etc. No entanto, esses textos foram escritos originalmente em nórdico antigo, uma língua que em si não é tão difícil, mas que exige algum tempo de estudo para aprendê-la. Por sorte, as enciclopédias oferecem indicações de numerosas traduções desses textos, principalmente em inglês.

Sem entrar na problemática discussão que envolve essas fontes, em suma, se seriam retratos dos séculos IX ao XI ou produções intelectuais dos séculos XIII e XIV, é preciso ressaltar a principal vantagem das traduções para o pesquisador iniciante: trata-se de um acesso rápido, prático e em linhas gerais do contexto que se pretende entender. Então, a tradução pode ser uma “mão na roda” para aqueles com interesse nas incursões vikings e que queiram saber um pouco mais antes de fazer um mergulho aprofundado. Nestes termos, a tradução é particularmente útil para aguçar um potencial pesquisador a prosseguir na área, investindo tempo e recursos. Ela também vale a pena se você só tem interesse na cultura escandinava antiga como um hobby e não pretende pesquisar sobre o assunto, só saber um pouco mais sobre.

No entanto, como diz o velho (e também problemático) ditado, é importante lembrar que “toda tradução é uma traição”; há várias opções para expressões de difícil tradução, generalizações, simplificações e adaptações a depender dos interesses do tradutor, da editora e do trabalho que se pretende oferecer ao leitor. Portanto, um leitor de primeira viagem precisa tomar certos cuidados para não se deixar levar pelos problemas que o percurso tradutório oferece, seja qual for a competência do tradutor.

Um exemplo interessante é a palavra jarl, que, grosso modo, deu origem ao earl inglês. De maneira simplificada, o jarl era um aristocrata com poder relativo e muito independente em determinada região, mas que não foi tratado e reconhecido socialmente como um rei (konungr). Em traduções espanholas, é corriqueiro encontrar a palavra traduzida como conde, mais próximo da experiência e da tradição espanhola; porém, as palavras jarl e conde não expressam o mesmo tipo de nobreza, isto é, com papeis e origens comuns. O mesmo problema ocorre com traduções para qualquer língua.

Por estas razões, um leitor interessado que usasse uma fonte traduzida para o espanhol, mas que desconhece o idioma original, teria à disposição uma noção no máximo aproximada e, infelizmente, inadequada da organização social escandinava da Era Viking. Caso esse leitor e pesquisador iniciante usasse tal tradução em uma pesquisa, por exemplo, poderia e, a rigor, deveria ser duramente criticado pelos ouvintes e/ou especialistas do assunto, pois ele retrataria determinado contexto de maneira errada, o que não aconteceria se o estudante tivesse um conhecimento instrumental mínimo do nórdico antigo, além do cuidado de comparar a tradução com o texto original.

Essa preocupação não defende uma “torre de marfim” composta por uma elite de especialistas sabedores de línguas arcaicas e que guardam esse conhecimento para si, criticando todos os outros, principalmente quem começou a pesquisar agora. Mas, se o aprendizado do nórdico antigo não fosse vital para fazer estudos relevantes da área, ele não seria um componente obrigatório e inicial em mestrados e doutorados tradicionais da área em vários países. Para confirmar isso, basta consultar os cursos sobre estudos da Era Viking e Escandinávia Medieval das Universidades de Aberdeen, Cambridge e Háskóli Íslands (Universidade da Islândia), que são referências no campo.

O alerta não pretende desestimular os interessados na Era Viking e Escandinávia Medieval no Brasil ou nos demais países iberoamericanos, mas alertar para como essa questão é importante entre os principais pesquisadores e centros de estudos. Saber a língua permite ao leitor e pesquisador avaliar as traduções e criticá-las, produzindo resenhas e apontando aos interessados das próximas gerações quais são os melhores textos, onde eles tem méritos e onde eles falham. Saber o texto permite ainda a produção de traduções em português e espanhol, ampliando o alcance dos estudos escandinavos nos países iberofalantes. Por fim, conhecer bem o nórdico antigo permitirá que você seja bem aceito em qualquer Programa de Pós-Graduação no país e no exterior, demonstrando que você é um pesquisador maduro e capaz de trabalhar com fontes textuais.
 
Onde aprender presencialmente?

Na América Latina, é possível aprender presencialmente tanto na Argentina quanto no Brasil. Em Buenos Aires, o Dr. Santiago Barreiro tem ofertado cursos de nórdico antigo e de cultura escandinava no IMHICIHU/CONICET e no Instituto Sueco Argentino (ISA). Ele utiliza como base a metodologia empregada no Mestrado em Estudos Islandeses Medievais da Universidade da Islândia. No momento, os interessados podem entrar em contato diretamente com ele ou com o ISA.

Em solo brasileiro, o Prof. Dr. Théo de Borba Moosburger oferece regularmente o curso de Língua e Cultura Nórdica Antiga no Centro de Línguas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Ele oferece uma apostila criada pelo próprio professor a partir de gramáticas e obras atualizadas sobre a língua e a cultura escandinava antigas. Os interessados podem buscar maiores informações clicando aqui.
 
É possível aprender o nórdico antigo sozinho?

Sim, é possível aprender o nórdico antigo sozinho. Há várias palavras em inglês que derivam do nórdico antigo, como jarl (earl); konungr e king (rei), por sua vez, compartilham uma origem comum, assim como a palavra alemã König, que tem o mesmo significado. Um leitor da Língua inglesa potencialmente aprenderá muito mais fácil do que alguém que só sabe o português ou o espanhol.

No entanto, o nórdico antigo também apresenta algumas dificuldades. Inicialmente, a questão fonética pode complicar bastante o aprendizado, uma vez que a pronúncia ajuda a memorizar as palavras. Por sorte, já há alguns guias fonéticos disponíveis tanto em português quanto em espanhol.

Outra questão que compromete o aprendizado são os casos gramaticais. O nórdico antigo se organiza de maneira similar ao latim, com quatro casos que expressam, em linhas gerais, as diferentes funções que as palavras desempenham nas sentenças. Por isso, pessoas que estudaram línguas que funcionam assim, como o alemão, o italiano e o latim, tem maior facilidade para aprender o nórdico antigo do que alguém que nunca lidou com línguas marcadas pelos casos.

Como material de base para aprender o nórdico antigo, há abaixo algumas gramáticas, dicionários e sites com recursos online que serão indicadas abaixo. Há um pouco de tudo: desde materiais técnicos a manuais mais simplificados. Alguns estarão disponíveis online diretamente ou em nossa biblioteca virtual (em breve).

  1. Álvarez, Maria Pilar Fernández (2000). Antiguo Islandés: Historia y Lengua. Madrid: Ediciones Clásicas.
  2. Barnes, Michael (2008). A New Introduction to Old Norse, vols. 1-3, London: Viking Society for Northern Research, Disponível em vsnrweb-publications.org.uk Acesso em 21 out 17.
  3. Byock, Jesse (2013). Viking Language 1: learn Old Norse, Runes, and Icelandic sagas, Pacific Palisades: Jules William Press.
  4. Cleasby, Richard & Vigfusson, Gudbrand (1957[1874]). An Icelandic-English Dictionary ..., Oxford: Clarendon Press, Disponível em norse.ulver.com/dct/cleasby/index.html Acesso em 21 out 17.
  5. Gordon, Eric Valentine (1927). An Introduction to Old Norse, Oxford: Clarendon Press.
  6. Hall, Alaric (2005). Resources for learning Old Norse, including Alaric's Magic Sheet of Old Norse paradigms, Disponível em alarichall.org.uk/resources.php Acesso 21 out 17.
  7. Hall, Alaric (2007). An Icelandic Primer - With Grammar, Notes, and Glossary, Disponível em web.archive.org/web/20141112000122/http://www.alarichall.org.uk/teaching/sweet_icelandic_primer_alaric_edition.pdf Acesso 21 out 17.
  8. Noreen, Adolf (1923). Altnorwegische Grammatik, Halle: Max Niemeyer, Disponível em www.septentrionalia.net/etexts/noreen_altis.pdf Acesso em 21 out 17.
  9. The University of Texas at Austin - Linguistics Research Center. Old Norse Online, Disponível em lrc.la.utexas.edu/eieol_toc/norol Acesso em 21 out 17.
  10. University of Cambridge - Department of Anglo-Saxon, Norse & Celtic. ASNC Spoken Word - Old Norse (Grammar and texts). Disponível em www.asnc.cam.ac.uk/spokenword/grammar_on.php Acesso em 21 out 17.
  11. Zöega, Geir T. (2004[1950]). A Concise Dictionary of Old Icelandic, Toronto: University of Toronto Press, Disponível em norse.ulver.com/dct/zoega/index.html Acesso em 21 out 17.