Artigo

Há artefatos da Era Viking no Brasil?

24 de Outubro de 2017 às 17:10

Prof. Dr. Renan M. Birro (UNIFAP)

Todo pesquisador sonha com o acesso às fontes originais, ou seja, manuscritos e cultura material de determinada época. Naturalmente, é possível propor estudos com edições críticas de textos, fotografias e filmagens em alta resolução, digitalizações e tridimensionalizações de objetos, sítios etc. No entanto, interagir e manusear os “fragmentos do passado” permite, em certos casos, propor trabalhos que são impossíveis para quem só estuda através do computador e tablet.


Imagem 1: Arqueólogos escavam túmulo de assentadores nórdicos na fazenda Ø64, no fiorde Igaliku, Østerbygden, Groenlândia (2010). Fonte: Jette Arneborg/Phys.org

Esse contato é fundamental para quem trabalha ou pretende trabalhar no âmbito da Arqueologia, ou ainda quem pretende fazer uma pesquisa interdisciplinar ou transdiscisplinar lançando mão da cultura material. Ter contato com as fontes pode propiciar insights que relativizam posições tradicionais do campo, que podem ter sido construídos no passado com intenções identitárias e nacionalistas, por exemplo. Além disso, o pesquisador pode tentar novos métodos de pesquisa, com o intuito de obter resultados que não eram possíveis com métodos anteriores ou tradicionais.

Mas como fazer isso, principalmente para o caso escandinavo, uma vez que os manuscritos e artefatos estão na Europa? Essa questão tem dificultado os estudos medievais no Brasil desde sempre. Muitos pesquisadores, quando recebem bolsas ou conseguem fazer uma poupança, vão para o Velho Continente para ter um contato direto com as fontes. Eles ficam lá por algum tempo, fazem cópias, filmas e fotografam o máximo possível, no intuito de retornar ao país e dar prosseguimento aos estudos por aqui. O problema é que não há bolsas em quantidade e, por questões financeiras, nem todos podem ir para a Europa com frequência. Dependendo dos países, como Islândia, Noruega e Suécia, os valores das passagens aéreas e os custos locais são bem maiores, o que torna a possibilidade de uma visita ainda mais difícil.

Nestes casos, como fazer para ter algum contato com fontes materiais? É preciso desistir? Há alguma saída para quem estuda a Era Viking/Escandinávia Medieval no Brasil? Por sorte, há um acervo pouquíssimo conhecido no país, mas muito rico em fontes da Antiguidade e Medievo. Há inclusive artefatos escandinavos, para quem quer se aventurar com fontes ainda não pesquisadas ou pouco pesquisadas no país.

Onde estão?
Se você ficou interessado, pode visitar o Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro. Ele fica entre a Praça XV de Novembro e o aeroporto Santos Dumont; ou, para quem conhece bem o centro da capital carioca, fica ao lado da sede do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, próximo do Terminal Rodoviário Meneses Cortes, das estações do VLT (linha 01 e 02) e da estação de Metrô da Carioca. É possível chegar no museu rapidamente do aeroporto graças ao VLT, que conecta a maior parte do centro do Rio.


Mapa 1: Mapa do centro do Rio de Janeiro, com os locais mencionados e especial destaque para o MHN. Fonte: Google Maps (2017)

Além de dispor de um prédio muito bem conservado e de uma exposição permanente riquíssima, o MHN tem uma das maiores coleções de moedas das Américas, com aproximadamente 145.000 espécimes contabilizando moedas, medalhas, selos, selos sigilográficos e valores impressos. E, aos interessados, é importante frisar que há uma grande quantidade de moedas da Antiguidade e da Idade Média que podem ser consultadas, fotografadas e tocadas - com cuidado e usando luvas, é claro, para proteger as moedas.


Imagem 2
: fotografia com a vista externa do Museu Histórico Nacional.
Fonte: Carlos Luis M.C. da Cruz/Wikipedia (2004)

.De fato, há alguns exemplares de moedas da Era Viking, com especial atenção para moedas do rei Canuto, o Grande (Knútr) e seu filho, Hörða-Knútr, que governaram a Inglaterra, Dinamarca, Noruega e partes da Suécia no período. De forma relacional, há algumas anglo-saxãs do século IX, período em que os escandinavos lançaram ataques e tentaram ocupar as Ilhas Britânicas, o que permitiria um trabalho comparativo. Também há moedas carolíngias da mesma época, ampliando o leque de comparação.

Para quem trabalha com outros recortes temporais e espaciais, é importante lembrar que há também moedas visigodas (inclusive de ouro!), ostrogodas, lombardas, árabes da Península Ibérica, francas e, posteriormente, portuguesas, italianas e espanholas. Abaixo, você pode ver uma moeda do reinado de Luís, o Pio (c.778-840), monarca franco que reinou no século IX:


Imagem 3
: moeda carolíngia, cunhada durante o reinado de Luís, o Pio. Fonte: do autor (2016).

Como pesquisar
Apesar da empolgação por tomar conhecimento de fontes medievais no Brasil, é importante lembrar que há um campo específico para o estudo das moedas chamado numismática. Durante muito tempo, ela foi considerada como uma ciência auxiliar ou subsidiária da História; mas, nas últimas décadas, a área desenvolveu tanto que pode e tem sido considerada como um domínio de estudos próxima da Arqueologia e História, mas com suas particularidades.

Por isso, o(a) interessado(a) deve primeiro obter uma base sobre a numismática, principalmente da elaboração de catálogos; infelizmente, apenas parte do acervo do MHN foi catalogado. Por isso, é preciso fazer o trabalho técnico de catalogação, que exige algum conhecimento e equipamentos, como aferição de dimensões com paquímetro (eletrônico e manual), peso (balança), material de produção (pode exigir análise laboratorial), datação, além de um formato de descrição com vocabulário específico.

Se você quer investir nisso, pode consultar o guia introdutório em português intitulado Moedas: a numismática e o estudo da História, dos profs. Drs. Cláudio Umpierre Carlan (UNIFAL) e Pedro Paulo Funari (UNICAMP), publicado em 2012. Em espanhol, indico a obra Introducción a la Numismática por Ana Vico Belmonte e José María de Francisco Olmos, publicada recentemente (2016); em inglês, por sua vez, as obras do Philip Grierson (1975; 1983) são clássicas e devem sempre ser consultadas.

Especificamente sobre Escandinávia, o principal nome corrente é o prof. Dr. Ildar Garipzanov, da Universidade de Oslo (Noruega). Embora tenha mudado um pouco o foco de seu trabalho nos últimos anos, ele publicou alguns artigos e capítulos de livros e, eventualmente, ainda propõe comunicações sobre moedas na Escandinávia, principalmente em um viés comparativo com o mundo carolíngio e Bizâncio. Incluímos algumas referências sobre os autores no final do texto para consulta.

Também é interessante procurar professores de Arqueologia e História que trabalham com Antiguidade, uma vez que o uso das moedas do MHN teve início com classicistas. Então, com eles, você pode conseguir referências técnicas do Mundo Antigo, mas que podem ser empregadas também para a Escandinávia.

Em seguida, com esse embasamento, o(a) jovem pesquisador(a) precisa procurar o Setor de Numismática do Museu Histórico Nacional para agendar uma visita: nem sempre as moedas estão disponíveis ou podem ser preparadas imediatamente (lembre-se: o acervo é enorme!). Também é preciso checar se eles abrirão ao público no dia que você pode ir. Por fim, há limitações de espaço, então eles organizam uma agenda para evitar a lotação.
Como informei antes, é preciso extremo cuidado ao manusear as moedas. Quedas podem quebrá-las ou amassá-las, e o suor da mão pode prejudicar seu estado de inteligibilidade e legibilidade. Para que se mantenham conservadas, o MHN oferece luvas e uma “área de trabalho” em lã verde, que evita o desgaste do acervo numismático. Também é possível tirar fotos, mas é preciso usar luz natural, pois não é permitido ou recomendada a utilização de flash.

Se você quiser entrar em contato o Setor de Numismática do MHN para ter mais informações, envie um e-mail para mhn.numismatica@museus.gov.br ou ligue para os telefones +55 (21) 3299-0328 e 3299-0328. Você também pode pedir ajuda para a museóloga Paula de Jesus Moura Aranha, que é a responsável pelo acervo que descrevi rapidamente. É possível contactá-la por e-mail (Paula.Aranha@museus.gov.br) ou nos telefones mencionados em horário comercial e dias úteis. Por fim, vale lembrar que as visitas ao acervo ocorrem entre a terça e a sexta-feira.

Catálogo de moedas escandinavas e anglo-saxãs do LEM
Como projeto de pesquisa institucional e coletivo, o grupo Leituras da Escandinávia Medieval - LEM - pretende elaborar um catálogo das moedas escandinavas e anglo-saxãs disponíveis no Museu Histórico Nacional, além de alguns ensaios sobre o tema. Para tanto, além de recorrer ao acervo em questão, pretendemos também consultar e pedir orientações ao Prof. Dr. Darío Sánchez Vendramini, eminente numismata e professor da Universidad Nacional de La Plata e da Universidad Nacional de La Rioja (Argentina), que visitará o Rio de Janeiro no próximo ano.

Referências
Asins,C. et al.(eds.) (2016). Diccionario de Numismática, Madrid: Ministerio de Cultura de España, 2009.
Belmonte, Ana Vico & Olmos, José María de Francisco (2016). Introducción a la Numismática, Madrid: Ediciones Paraninfo. Disponível em books.google.com.br/books?id=RbfgDQAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false
Carlan, Cláudi Umpierre & Funari, Pedro Paulo (2012). Moedas: a numismática e o estudo da História, São Paulo: Annablume (100pp).
Garipzanov, Ildar (2005). Carolingian Coins in Ninth-Century Scandinavia: A Norwegian Perspective, Viking and Medieval Scandinavia (1), pp.43-71.
Garipzanov, Ildar (2008). Carolingian Coins in Early Viking Age Scandinavia (ca.754-ca.900): Chronological Distribution and Regional Patterns, Nordisk Numismatisk Årsskrift, pp.65-92.
Garipzanov, Ildar (2011). Religious Symbols on Early Christian Scandinavian Coins (ca. 885–1000): From Imitation to Adaptation, Viator 42 (1), pp.35-53.
Grierson, P. Numismatics, Oxford: Oxford University Press, 1975.
Grierson, Philip et al. (1983). Studies in numismatic method presented to Philip Grierson, Cambridge: Cambridge University Press, 1983.
Salgado, D. (2009). Numismática. Concepto y metodología, Buenos Aires: Nueva Visión, 2009.